terça-feira, outubro 25, 2005

E porquê o Prof. Cavaco Silva?

Eu cresci a ouvir o nome do Prof. Cavaco Silva, e também o do Dr. Mário Soares, até porque lá em casa, sempre existiu a presença das duas cores políticas. Mãe de direita e pai à esquerda, foram estas as minhas influências. Acabei por me identificar com a direita, não porque seja uma conservadora de espírito, mas porque sou uma conservadora de princípios. E também porque sei observar o ambiente que me rodeia!

Foi em 1985 que, tinha eu 5 anos, que o professor foi empossado Primeiro Ministro. É claro que eu na época não tinha a noção a não ser de um nome que era frequentemente repetido nas notícias e em algumas refeições em família. No ano seguinte, já na escola primária, a minha querida professora, sempre com a sua austeridade e rigor, terápor várias ocasiões mencionado o nome das individualidades que governavam o país. Lembro-me de já nessa altura, dizer com inocência, que era do PPD, tal como a mãe! Qual é a criança que não imita os crescidos e segue idealogias dos progenitores?

Dos tempos, recordo que foram difíceis. O meu pai passou por uma crise de precariedade laboral, com ordenados em atraso, que se tornou particularmente difícil com o nascimento das minhas irmãs, gémas por sinal, que vieram transformar uma família de 3, numa família de 5. A crise foi ultrapassada porque encontrou a estabilidade numa empresa alemã, que transformou a instabilidade em algum sossego. Foi a passagem do horário das 8 -12h e da13-17 para um horário por turnos semanais. Tudo isto consegue contextualizar um pouco a situação social de um país emergente de uma ditadura. A mudança acontecia, lenta, mas presente.

Leio hoje que o primeiro governo de Cavaco Silva foi assim caracterizado:

"Os cortes nos impostos e a liberalização económica, incluindo privatizações de empresas públicas deram origem a diversos anos de crescimento económico ininterrupto..."

Hoje olho para trás e vejo que durante essa época o meu pai conseguiu comprar um carro,ao fim de alguns anos a andar a pé e de transportes públicos, e que apesar das dificuldades, fui uma criança feliz, com uma família, com acesso a uma boa alimentação, com uma boa educação escolar, com acesso a actividades lúdicas, numa escola pública e gratuita. Como se diz hoje, uma família à antiga portuguesa.
Durante a semana, a escola, com a mãe sempre por perto, e ao fim de semana, o tempo em família, com idas à praia, de verão e piqueniques nos pinhais à beira mar.

Portugal, entretanto passa pela adesão à CEE, actual UE, e tem como figuras centrais desta adesão, o Prof. Cavaco Silva e O Dr. Mário Soares. Esta imagem tenho-a clara na memória e á altura tinha já a capacidade para compreender que se avizinhavam tempos de mudança.

Fui sempre crescendo com estes nomes presentes. Em 1991, aquando da segunda maioria absoluta de Cavaco Silva, já eu tinha pegado numa bandeira do PPD/PSD, pois havia uma divisão quase em frente à casa dos meus avós. Eram aventais de plástico, bandeiras, esferográficas, e o single em vinil, com o hino do partido, que a minha mãe costumava ouvir, de vez em quando. Eram os dois dedos num gesto de concordância com os ideais de adultos, aínda que sem comprender muito bem porquê, mas tendo já a noção que a "cor laranja" e as pessoas que eu via representar esse ideal, me diziam algo.
Por vezes, em casa dos meus avós paternos, a discussão política era acessa, pois a família, pelo lado do pai, tradicionalmente operária, era uma família marcadamente socialista. Eu continuava, a dar apoio á minha mãe, vinda de uma família à direita.

Sei que os anos da segunda maioria absoluta, foram controversos, assim como se marcaram pelas lutas acesas entre Primeiro Ministro e Presidente da República. Marcaram também pela imagem austera de Cavaco Silva, mas que a mim, honestamente, nunca me pareceu austero, mas sim rigoroso e coerente.

Vieram as presidenciais! Aínda que sem direito de voto, mas com plena consciência da minha intenção de voto. Houve a derrota, e a partir daí cresci em opinião e cresci com o panorama do país. O professor retirou-se mas esteve sempre presente.

Já tinha entretanto chegado a "quimera" chamada António Guterres, sei que foi durante o seu mandato que comprei casa, que usufrui de crédito jovem bonificado, que se diz que houve crescimento, mas a verdade é que colheram frutos plantados durante os mandatos de Cavaco Silva. A verdade é que a utopia se instalou e se gastou mais do que a conta. Cresceu o individamento e "gastou-se hoje, para dever amanhã."O resultado foi o crédito desmensurado, o aumento do individamento das famílias, a diminuição da poupança, o consumismo desenfreado... Portugal viveu uma mentira e acordou tarde para a realidade. E veio o 11 de Setembro, e veio o Euro e veio a guerra do Iraque. A culpa da conjuntura foi parar as costas do rigor de Manuela Ferreira Leite, e ao abandono precoce de Durão Barroso para a Europa. Veio Santana e foi crucificado por todos. Isso é outra estória... Mas sem dúvida com claras intervenções da esquerda, que se apoiou na bengala presidencial. Sampaio dissolveu o governo e agravou-se a situação de desânimo nacional: 2Não há mais vida para além do déficit, isto porque ele ilustra claramente a situação das contas públicas. A verdade é que quem gasta mais do que pode, arrisca-se a não ter para pagara conta! Que falta nos fez o Prof. Cavaco.


Sempre desejei poder votar nele, e não interessa que apesar do meu voto laranja, neste caso até se fosse um candidato á esquerda, eu votaria nele. Pela coerência, pela lucidez, pela capacidade de gerir, de ser coerente, de ser directo, de ser isento e de ser estável. Pelo orgulho em ser portuguesa, pelo orgulho no que é português, no que é genuíno, no que é válido e credível.

Por si Prof. Cavaco, pelo que pode trazer para nós jovens e para o nosso futuro, para a força anímica que tanta gente precisa, para que não brinquem mais com o país que temos.

Força Portugal! Professor o país conta consigo!